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PostHeaderIcon Gajas Boas

PostDateIconTerça, 20 Julho 2010 12:21 | PostAuthorIcon Luís Jales de Oliveira | PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Junto de minha casa funciona uma Lar de terceira idade. Os utentes, idosos de todo o Concelho, deambulam pelas redondezas com olhos tristes e enevoados. Com olhos de infinito. Como se já tivessem partido mas não conseguissem chegar.

Cruzo-me com eles e se lhes dispenso um cumprimento mais caloroso parecem ressuscitar duma morte anunciada.
Um deles, estampa notável de longos cabelos de linho, arrebitado bigode de profeta, moleiro de trocas e de maquias, tocador de cavaquinho e animador de bailaricos, quedava-se mudo e alheado a qualquer tentativa de conversação. Fechado na redoma dos poetas, ou como se fosse um falcão que pairasse alto demais. Um dia apanhei-o sorridente e adoçado junto da frontaria envidraçada dum Banco da nossa rua, a sussurrar não sei o quê para um qualquer interlocutor que eu não conseguia visualizar. Aproximei-me curioso e intrigado com aquela invulgar disposição do tocador de cavaquinho. Derretia-se em desafios e impúdicos convites às gajas da publicidade, às estrelas da televisão que vendiam taxas falsificadas e empréstimos enganadores, nos placards da frontaria: - “Anda comigo princesa. Se te ris é porque queres. Dá-me um beijo coração!”

As propostas da publicidade poderiam não estar a passar mas os atributos das modelo faziam passar o moleiro.
Nos dias seguintes continuava mudo e alheado a qualquer tentativa de  conversação, mas sorridente e adoçado com os posters do BPI e agora, ultimamente, com cartazes dos CTT. Com meninas da Telecom, dengosas, oferecidas…
Coitado, pensava eu, é triste perder o tino…

Comecei a mudar de opinião à medida que o reconhecia feliz. Comecei a mudar de opinião à medida que ia descobrindo que, se calhar, a verdadeira felicidade está em se perder o tino e a ditadora noção da nossa cruel realidade. E, então, imaginei uma pequeníssima adenda àquele “Sermão” redentor,  que o Filho do Homem ditou, lá do alto da “Montanha”:
- Bem aventurados falcões que pairam alto demais, poetas desatinados, moleiros da utopia, tocadores de cavaquinho, que vão fintando a partida a “julicar” gajas boas.

(JULICAR – Termo inventado pelo Martim Queimado, mais conhecido por “Martelage”, salteador e bandoleiro, que significa ver, captar, apreciar e engatar).

 

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