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PostHeaderIcon Com os ladrões às costas

PostDateIconQuarta, 21 Julho 2010 16:28 | PostAuthorIcon Jorge Lage | PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

«COM OS LADRÕES ÀS COSTAS»

A vida é como um carrossel que vai girando, com altos e baixos, mas sempre e impiedosamente a avançar para o fim. É a roda do tempo, contra a qual nada posso, mas que gostava de poder, um dia, meter-lhe um chuço na engrenagem e fazê-la parar, ainda que fosse por uns instantes.
Há ainda umas décadas a trás que os mais idosos eram vistos, pelo menos no mundo rural, como uma mais valia. Como alguém sábio a quem se podia escutar os seus conselhos ou pedir uma opinião quando se pretendia tomar uma decisão.

Ainda me lembro de outros lavradores mais novos que o meu pai lhe perguntarem, se já poderiam semear este ou aquele cereal, este ou aquele renobo. Se aquele terreno daria bom trigo ou se naquela regota se faria um bô olibal. Se devia inxertar a vinha com prumos de bastardo, verdelho, mourisco, malvasia, tinta carvalha, tinta Roriz ou moscatel. Se naquela embelga era melhor pôr uma carreira de oliveiras, verdeais, madurais, rebolas, cobrançosas, cordobis ou bicais. É que havia terrenos secos e outros enchoquecidos, encostas solheiras ou de abexêdo (mais frias) e isso condicionava as plantações e tipo de culturas.
Os conselhos não se ficavam só pelas plantações, passavam por indicações sobre animais domésticos e de trabalho. Se a raça de beis galegos, mirandeses (deitam uns castelos) ou paibotos (pequenos mas bons para o trabalho e destemidos a puxar a charrua funda ou o carro bem carregado. Estes são pequenos mas têm a alma grande – alma no sentido de sangue e força, escravos do trabalho ou se tinham má boca. Até onde eram os animais criados ou de onde rescendiam tinha influência, por isso se dizia: - homes de Santa Maria (de Émeres), beis de Valpaços e mulheres de Valtelhas, quem os meter em casa torce as orelhas.

Depois, a sabedoria dos mais novos ou dalgum cadelo gougueiro era posta à proba com perguntas deste género: - quantas missas se podem rezar ao mesmo tempo na catedral de Miranda do Douro? Quantos olhais tem a ponte de Mirandela? Como se conhece um nobilho dum bei cerrado? Quando o pão debe começar a encanar ou em que mês se fai uma boa sementeira? Qual é a melhor qualidade de batatas – ranconce, canabeque ou rambana?
A faina do mundo rural é uma ciência prática que se está a perder completamente.
Em Angola, que é um país em franca construção, preferem contratar uma pessoa de meia-idade (aqui paga-se para que deixe de trabalhar) do que sem experiência, porque ali ainda se valoriza o saber e o saber de experiência feito.
Hoje já não se transmite o saber às gerações mais novas porque os velhos do mundo rural são empurrados para os asilos a que chamam lares ou residências, mas a realidade mostra que são asilos. São depósitos de velhos que, em alguns aspectos me fazem lembrar antigos guetos. Isto é, por mais que «pintem» estes locais são depósitos de pessoas idosas à espera da morte e a sua função não muda. Podem-me dizer que são precisos. E são. Mas, só em situações pontuais, que rapidamente evoluíram para a generalidade. Porém, os que hoje empurram os familiares para esses lares de solidão e de abandono também estão a construir o seu caminho dentro de alguns anos (- filho és pais serás, assim como fizeres, assim acharás!).

A nossa idade pode ser vista pela perspectiva da vida vivida, da sabedoria acumulada, mas também da ruína do corpo que o poeta António Cabral diz ser bem pior que as ruínas do Castelo de Almendra. A esta ruína, que no fundo começa quando nascemos, é uma constante nas nossas vidas. Podemos iludir-nos ou tentarmos enganar-nos mas não ludibriamos o nosso corpo, nem o espelho.
A sabedoria popular apelida a idade dos anos de ladrões, porque nos roubam a força, nos roubam a beleza e nos vão limitando os movimentos. Ladrões porque nos roubam o bem mais precioso que é a vida, a frescura e a vitalidade e nos tornamos uma terrível ruína com mazelas encarquilhadas.
Assim, quando se diz a alguém que tem «uns bons pares de ladrões às costas» é uma forma disfarçada de se dizer que tem uma bonita e sábia idade. Muitos não assumem a idade, a ruína do corpo, mas é apenas uma ilusão. E ai quem não tem a felicidade de chegar à terceira ou à quarta idade... acaba por não viver a vida em toda em sua extensão!
Assim, porque já vi partir muitos da minha idade, posso dizer que já tenho «uns bons pares de ladrões às costas», isto é, já vou bastante à frente do meio século de vida, mas cada vez mais o voo da vida se vai encurtando.

 

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