A ESCREVER TAMBÉM SE JOGAl

Vede uma criança de mãos em concha, ávida de agarrar a bola que lhe atiram. Esse instante resume o que há de mais belo no jogo: o mar e a concha, a vastidão prestes a entrar num espaço exíguo, sem se perceber como. Todas as outras coisas deixam de ter sentido. O mundo concentra-se num relâmpago. A bola é imensa, esplendorosa. Só ela existe e os olhos que a engrandecem.

O joguinho infantil é o modelo de toda a actividade lúdica. Vede agora o escritor que num papel ou num computador escreve os seus poemas, um romance, algum conto ou uma peça de teatro. Não repete ele o jogo infantil, primeiro ao recolher em suas mãos, vinda não sabe donde, uma bolinha longínqua, um arder necessário, que depois lança para outras mãos?
Se escrever é jogar, ler é partilhar o jogo da vida. Sinais. Cada leitor tem a sua maneira própria de ler. Reescreve o que lê e isso é bom. A ler também se joga. Joga-se duas vezes. Dantes, o escritor também já tinha lido, muito, fora e dentro de si. Leu o quê? Algum dia o chegará a saber?

in O Rio Que Perdeu as Margens